Noite atravessada

Ilustra: Sérgio André Rossi

09.11.2016
Toda nua mostro a mim
De mesmo modo a mim se ensinua a curva desnuda,
Apela pela pele do peito,
A ponta do bico do seio
Minha nossa!
Nosso suor atua
O pelo da pelve sua
Sua a sua pele na minha
Escorregadia m’envade perturba
Suo pelos pelos, pela pele da pelve nua
Pede pé dentro
Pede pênis no ânus
Pede pelamor de Deus em desespero
Pede por todo lado falo
Pede de pé
Pede de todo jeito o dedo
Des-espera pela pica
que míngua
Assim assada suada espera
a língua assídua
que não cessa
E a noite atravessa
Em Terra.

Terra

Donzela minha

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Kaethe Butcher

(20.05.2016)

Como foi o dia em que você se escolheu? Diga-me, como é definir-se? Decidir seu nome, sobrenome, gestos, sorrisos, cabelo, trejeitos, como gozar, como olhar ou caminhar…?

E o primeiro dia em que chupou um pau? Enfiou goela abaixo, escorreu os olhos, regurgitou na glande sem encostar os dentes? Fala pra mim, como foi esse instante, de liberdade ou repugnante?

Falemos sobre o seu cu. Não consigo parar de pensar nele, seu gosto, cheiro, contrações. A forma como ele pulsa na minha língua lânguida a cada lambidela e um gemido novo seu derretido.

Gosto da sua perna aberta, bunda arrebitada, mãos à cabeça, toda contorcida. De meter meu corpo no meio do seu, em seu vão entreaberto raspo meu pentelho na sua pele, rego e te fodo.

Enquanto me roço, quase gozo escorrego na umidade dos lábios babando de vontade. Beijo sua nuca, Donzela, orelha, queixo e pescoço. Geme no meu ouvido, eu me delicio. Respira como uma cadela rendida, tendo o que há tempos queria. Entregar-se inteira, perder o controle, abrir a perna, perder as estribeiras.

Te amo.

Terra.

Em pó

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Autor desconhecido

(03.05.2016)

Como é duro o desapego
Das crenças, valores,
Das imagens construídas
num aconchego.

Aquela mobília
Na família
Há gerações
Entupida de pó
E ilusões.

Desfazer-se do eu
É transformar-se em pó
Que dó que dá.
Dedicar a vida
A uma poeira:
Viver iludida.

Que difícil é lavar os óculos,
Ajustar as lentes,
Limpar o espelho,
Se olhar de frente,
Sem medo.

Que o receio não nos impeça
De ver o que tá escondido
Comprimido
Debaixo do travesseiro.

Não é fácil baixar a guarda,
Lavar a cara,
E de cabeça erguida
Seguir na lida.

Não odiar-se ao descobrir-se
Sua pior inimiga.
A que carrega em si
Todos os sonhos do mundo
Mas oprimia.

E se ao erguer o rosto,
Tomasse o fôlego,
Se permitisse ver
Que o que há no mundo
Também há em você?

Corto meu cabelo
Como que no desespero
Eu possa ser uma página em branco.
Jogar fora as crenças e valores
Que já não banco, nem quero alimentar.

Refaço minha imagem
Numa expectativa de liberdade.
Parece vão.
Perguntam-me se fui presa,
Digo: sim, por uma vida inteira.
Agora não.

Terra

A priori

apriori

(01.01.16)

Hora de
passar a ouvir
passar a sentir
passar a deixar
passar a chegar
passar a fazer
passar a acontecer
passar o café.

Tornar-me.
Prioridade de mim
a priori.

Quero tomar meu café morno
Escrever na folha branca
Pensar na morte da bezerra
Lembrar da borboleta
pousada na minha prenda.

Risos de nervoso pela sala… truncada.
Vontade pra todo o lado
De todos os cantos, sem muito encanto.
Vontade de ser mais que nada família.
Mesmo sem se ter ao certo a que se referia.
Desconjuntando, descontruindo desafetos,
pareando-se na jogatina.

O pairo da gaivota suspende a atenção-tensa
sobre a conversa derradeira
sobre a areia molhada de mar em terra.
Só que continuo no ar como costumo ser.
Oxigenada, aerada, cheia… de vida.

Adoro a palavra AGUERRIDA.

Terra

Dor

mulher_poderosa(09.05.2016)

Dor no meu corpo
Dor nas minhas histórias
Dor no meu entorno
Dor nas minhas costas
Dor na minha consciência
Dor no meu dorso
Dor nas consequências
Dor na minha lombar
Dor nômade
Dor homemade

DOR AR DOR AR

Dor nos meus olhos
em tudo o que vejo
para todos os lados
Ar dores em muitas lágrimas
Há amores apesar
Há amores a pesar em
Há amores a partir
Há amores a ruir
Há amores, há rumores
Entre torcicolos
Palavras torneadas
Pessoas desoladas
Presas na dor

Percebem o vão
Sem perdão, sem

Nem piedade
Prendem-se
Em crueldade
Pensam em
Exposição
Pinçam partes que partem
Coração sem
Pretensão.

Não há negociação.

Terra

Coisa de mulher

elis_marina_buquera
Elis Marina Buquera

(20.03.2016)

Eu acho graça, porque a amo
Eu crio histórias,
Faço da vida poesia.
Ela se constrange
Não entende o presente.

Eu transformo o que vivo.
Maturo as palavras,
de molho as deixo
até que germinem.
Processo lento de espremer com as mãos,
até descascar-me inteira. Depelo-me.

Não acho graça por ser engraçado.
Apenas porque a amo.
Abro espaço pro universo
Esmiuço em versos,
Ela esmaece.

Agora, vamos falar todos sobre sentimentos!
Que o mundo se sensibilize, porque agora a gente grita.
Que façamos todos DRs com o mundo,
Com o amigo virtual, de infância ou de ocasião!

Agora, ninguém vai se safar!
Não há pra onde ir.
Vamos a partir de já falar em sentimentos.
Sejamos todos sentimentalóides!!!

Vamos confundir poesia com diário.
Posicionamento político com mimimi.
Militância com TPM.
Nós vamos fazer o mundo mais colorido,
E seremos confundidas com floreios…
Ah, é coisa de mulher!

Aguente!
Agora vamos falar!
De todo sentimento estancado,
de todos os nãos que o mundo nos deu.
Agora vão ter de nos engolir,
e a emoção não será mais ridicularizada.

Terra